10
Fev

Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres


Nos meus dias de férias e descanso tive a graça de passar boas horas em companhia de uma mulher incrível! Clarisse Lispector.

Minha querida cunhada Vanessa, que é uma atriz com A maiúsculo, havia me dito que este livro era uma experiência daquelas que a gente tem que viver um dia. Ela tinha razão.

Uma semana antes de viajar passei na minha livraria favorita http://www.mahatmalivraria.com.br/) e eis que ELE estava ali, me olhando. É claro que voltou pra casa comigo e se aconchegou logo na minha bolsa de praia.

"Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres" é uma verdadeira aula de subjetividade. Você consegue consegue viver a vida de Lóri realmente pelo lado de dentro. Seu ritmo, sua dor, suas descobertas, seu êxtase, sua liberdade.

A história da construção de um amor altamente "télico" (como se diz no Psicodrama), ou seja, uma experiência de envolvimento profundo com o outro sem que nenhum dos dois de desfaça....ahhhhh....coisa rara. Lóri e Ulisses primeiro se constroem em si mesmos, só depois se entregam um ao outro. Assim mesmo, inteiros, os dois caminham para formar o terceiro, o nós.

A aprendizagem é a de Ser. Aprender a Ser. Ser quem real e verdadeiramente se É. Assumir seus gostos, suas paixões, entrar em contato com a vida, com a chuva, com o silêncio. Lóri e Ulisses vivem momentos raros entre nós hoje em dia. São capazes de ficar hooooras em silêncio, a dois. Um silêncio fecundo, quente, vívido.

E no andar da Aprendizagem é que torna-se possível acessar a experiência concreta do prazer. Prazer de estar viva, prazer sentir a brisa no rosto, prazer de morder uma suculenta maçã....sentir o GOSTO da vida.

Clarisse deixou um presente para nossa geração com este livro. Uma geração que convive cotidianamente com a perda da capacidade de sentir o GOSTO gostoso da vida. Estamos batendo recordes diagnósticos de Depressão e Estresse. Temos sérios problemas em sentir o gosto da vida. Estamos distraídos demais correndo pra lá e pra cá e nos entupindo de coisas que não nos saciam. 

Precisamos urgentemente re-Aprender a sentir o GOSTO da vida. Abocanhar a vida como quem abocanha uma suculenta e vermelha maçã. Simples, complexa, profunda, milagrosa.

Este livro nos brinda com a possibilidade de observarmos, de dentro da alma de alguém, o seu encontro consigo mesma e com um amor intenso e verdadeiro. Uma jóia. Um presente.

Ficou com água na boca? Então prove!


Seguem alguns trechos do livro:

"O coração tem que se apresentar diante do Nada sozinho e sozinho bater em silêncio se uma taquicardia nas trevas".

"Existir é tão completamente fora do comum que se a consciência de existir demorasse mais de alguns segundos, nós enlouqueceríamos. A solução para esse absurdo que se chama "eu existo", a solução é amar um outro ser que, este, nós compreendemos que exista".
Rachel Gutiérrez, que escrevou a orelha do livro nos conta que:

"Por ser trabalho, escese, viagem, o amor de Lóri e Ulisses vence a diferença, o estranhamento, vence até mesmo a morte. E a entrega finalmente física dos personagens se realiza com força tântrica de êxtase, de epifania. Para Lóri, a atmosfera era de milagre; Ulisses estava sofrendo de vida e de amor.
Nada Termina, porém, o momento anuncia uma nova aurora: Ambos estavam pálidos e ambos se acharam belos. Clarice, que se insere sabiamente no possível, feha com dois pontos a narrativa que começara com uma vírgula".