10
Nov

Sempre devendo...

Quando altas expectativas e dívidas morais aprisionam o coração


Um mês sem escrever no blog e o peso da dívida me atormenta...

Dia após dia, um sussurro discreto passava por meus ouvidos: “quando é que você vai escrever?” E eu dizia: “mas eu não tenho compromisso de escrever o tempo todo, já disse isso para os que freqüentam aquele espaço”...
Não bastou.

Mesmo depois de tantos anos de terapia aquele maldito guarda de trânsito que mora dentro de mim às vezes dá sinal de vida e sai como um louco a me apitar: Prriiiiiii!!

Aponta o dedo pro meu nariz e diz “Você TEM QUE isso ....Você TEM QUE aquilo....Você NÃO PODE....Você DEVERIA....”

Já reparou quantas vezes por dia usamos estas expressões? E que elas estão sempre às voltas com nossas culpas e auto-cobranças?

É incrível como nossa vida comum está repleta de faltas e dívidas.

Além dos crediários, financiamentos e faturas de cartão de crédito, contabilizamos em nosso “balanço emocional diário” sentimentos culpa e peso. São saldos negativos gerados em situações nas quais geralmente não nos comportamos como deveríamos (ou gostaríamos), deixamos passar algo que não era para ter passado, prometemos algo que não conseguimos fazer, nos dedicamos a fazer coisas para os outros mas que, no fundo, não queríamos ter feito.

Freud chamava este cara que chamo de guarda de trânsito de “Super Ego”. Lá onde as leis, a moral e a culpa se instalam e se movimentam em nós quando estamos mergulhados na lida diária da vida. Tudo bem, ele é necessário para que a gente não saia na rua pelado nem rasgue dinheiro. Culpa é o que o psicopata não tem. Por isso manipula e prejudica o outro. Senso de responsabilidade e noção do mal que podemos imprimir ao outro é a função benéfica do dever social, da moral e do sentimento de culpa.

O problema é quando o Guarda de Trânsito Interno fica se achando muito poderoso e passa a fazer o que é comum entre alguns “guardas" da vida real: ABUSO DE PODER.

Muitas são as pessoas que se exigem demasiadamente, vivem num sentimento diário de inadequação (sempre poderiam ter feito melhor), ficam muito atentas ao que os outros vão pensar ou falar delas.


Ficar refém de rígidas regras morais, impor a si mesmo condições idealizadas sobre como deve se comportar neste ou naquele espaço, criar rotinas e metas desumanas e impraticáveis são exemplos de como podemos tornar nossa vida diária árida, pesada e sem gosto. Este é o perfil do TEM QUE, do ESTOU SEMPRE DEVENDO...


Proponho o exercício saudável de separar o necessário do que é excessivo.
- A quem realmente devo satisfação?
- Eu preciso / quero mesmo assumir este compromisso?
- Eu vou conseguir atender a este prazo que assumi?
- Como posso cumprir meus compromissos sem me perder entre o dever com o mundo e a satisfação das minhas verdadeiras e profundas necessidades?


Há situações que permitem quais dizer EU NÃO POSSO, EU NÃO QUERO, EU NÃO VOU sem prejudicar o outro no seu direito e no seu lugar de ser respeitado. É uma forma mais honesta e verdadeira de se apresentar diante das cobranças da vida. Mas não sem assumir a responsabilidade por todas as conseqüências que virão desta atitude.

A vida adulta é isso...este mágico (e concreto) equilíbrio entre liberdade e responsabilidade.

Quando comecei a escrever este texto veio aquele impulso fortíssimo de me justificar (atitude mais comum nas experiências de dívida moral). “Não escrevi porque estava ocupada”, “minha vida anda corrida”, “não consegui me inspirar”.


Não vou cair em tentação!!! Não escrevi porque não rolou...e ponto. Sem culpa.