27
Abr

O veneno das expectativas

Acompanhe a sequência:


Altas Expectativas 
Decepções 
Frustração 
Raiva
Tristeza
Desesperança
Novas Expectativas...

Alguém aí experimentou a amarga sensação de rodopiar neste círculo vicioso?

Esperar e se frustrar comigo, com os outros, com as coisas...

Na mitologia grega os centauros aparecem como uma figura a nos auxiliar na compreensão deste mecanismo. Metade homem, metade animal, eles eram intensos, impulsivos e luxuriosos. Adoravam emoções fortes, festas e ninfas. Um dos seus passatempos prediletos era sair em bando com seus arcos atirando flexas o mais longe possível. 

A brincadeira era cavalgar o mais rápido que pudessem pelas matas e para que conseguissem pegar as suas flexas no local onde caíram. Esta era a meta. Quando conseguiam ficavam extasiados e orgulhosos de si. A questão é que, na maioria das vezes, mudavam seu rumo no meio do caminho porque se interessavam por algo (ou alguma ninfa) e simplesmente esqueciam da meta. Quando lembravam era tarde. Era preciso começar tudo de novo.

Este mito não trata somente de persistência e foco na vida (duas coisas, aliás, muito importantes). O mito dos centauros nos põe a pensar também sobre as altas expectativas que colocamos na vida. Uma das características destes seres mitológicos é nunca estar satisfeito com o que se é e o que se tem. Esperam sempre mais da vida, de si e das pessoas, por isso tendem sempre a viver em frustração e aguardando o "dias melhores" que virão...

Muitas pessoas que se percebem constantemente tristes ou raivosas com suas vidas e com os outros sofrem, na verdade, por serem verdadeiras fábricas incessantes de expectativas. E neste exercício de sempre esperar que melhore, que a vida traga a felicidade com pensamentos do tipo "quando eu me formar minha vida vai ser outra", "quando receber o aumento que tanto quero vou poder ficar tranquilo", "quando meu marido mudar tudo vai ficar bem lá em casa", " quando eu me aposentar aí sim vou realizar os hobbies que nunca me permiti" e muitas outras.  

Neste exercício de olhar sempre pra frente, vamos nos tornando cegos para aquilo que já conquistamos, para o doce sabor do hoje, para as bênçãos que nos cercam (saúde, casa, realização profissional). O foco fica muito mais voltado para o que falta do que para o que tem. 

E assim, vive-se a todo instante o sentimento de incompletude, de vazio, de ansiedade por algo que está por vir.
A imagem do Buda gordinho e sorridente representa um estado de Contentamento diante da vida. Está satisfeito, completo, nada lhe falta.

Por que será que grande parte das pessoas só acorda para o valor daquilo que tem e é quando perde um ente querido, quando está diante da morte, quando há doença na família, quando há uma catástrofe como a de Santa Maria ou de Boston? Nestas horas o véu da ilusão some e passamos a visualizar o verdadeiro valor das pequenas e simples experiências da vida.

Viver de expectativas é viver de frustrações constantes e esperanças iludidas, momentâneas. É envenenar seu coração com impotência e amargura por algo que ainda não veio. É perder os parâmetros a respeito daquilo que tem valor HOJE e daquilo que eu acho que no futuro vai me trazer a tão esperada felicidade.


Segundo o filósofo espanhol Sêneca, o remédio pra frustração, raiva e indignação é um só: NÃO CULTIVAR EXPECTATIVAS. 

Para ele, se eu faço o exercício de não esperar nada das pessoas, das situações e das coisas e passo a viver somente daquilo que É, aqui e agora, este tipo de emoção praticamente desaparece de nossas vidas. 

Não se trata de conformismo, mas sim de viver com mais gratidão à vida pelo que ela te oferece de bom e de desafiador para seu crescimento, sem julgar, sem definir, sem projetar.

A sabedoria está em acolher aquilo que nos é dado para o momento. Trabalhar para crescer e conquistar sim, mas sem perder a noção de quem eu sou e do que eu desejo pra mim. 


Semear o futuro saboreando o presente!  

   
Se estiver com um tempinho e querendo experimentar a virtude do Contentamento no lugar do veneno das Expectativas, curta o som de Elis cantando " Casa no Campo".