17
Abr

O grande abismo que separa conhecimento e sabedoria


- Ler mil livros apenas uma vez ou ler mil vezes o mesmo livro.
O que tem mais valor?

- Nunca na história tivemos acesso a informação como temos hoje.
Nos tornamos mais sábios por causa disso?

- É cada vez mais comum convivermos com pessoas cheias de títulos (especializações, mestrados, doutorados, PHDs..).
Estamos menos ignorantes por causa disso?

Nos meus tempos de empresária, vivi momentos desafiadores no que dizia respeito a contratação de pessoas. Bastava abrir uma nova vaga para consultor para uma grande quantidade de currículos se acumularem sobre a minha mesa. Eu ficava especialmente impressionada com aqueles que apresentavam uma boa quantidade de títulos acadêmicos e publicações científicas. Coisa mais comum é a gente tomar a pessoa por seus predicados.

Daí em diante o que eu vivia era uma sequência de entrevistas decepcionantes. Quando alguns dos "mestres e doutores" começavam a falar de duas experiências e de sua forma intervir sobre a realidade é que se revelavam . Eu me perguntava: "mas de que serviu tanta teoria se esta pessoa não tem preparo nenhum para atuar no campo que ela tanto estudou?"  

E o outro lado era surpreendente. Alguns dos melhores consultores que eu contratei na época eram pessoas que não tinham nem pós-graduação ainda, alguns eram recém formados, mas tinham uma visão tão aguçada da realidade do trabalho que pretendiam, tinham uma postura humilde mas destemida na direção dos desafios que estavam pela frente, tinham discernimento para criticar e avaliar os aspectos relevantes do fazer do psicólogo e das necessidades dos clientes.

Estas e outras passagens me fizeram refletir muitas vezes sobre qual o verdadeiro papel do conhecimento em nosso desenvolvimento como pessoas e como profissionais?

Não raro me deparo com situações nas quais as pessoas acreditam que basta apenas uma exposição a uma teoria ou a uma informação para garantir a aprendizagem (antigamente os professores diziam que isso era 'reter o conteúdo'). Trata-se da "Teoria da Vacinação Educacional". O professores "vacinam" os alunos com uma "dose de informação" e pronto. O aluno tem a tarefa de carregar aquilo dentro de si para todo o sempre. 

Mas agora te pergunto: Quantas coisas que você já 'aprendeu' na vida que simplesmente evaporaram? Não viraram nem memória, quanto mais compreensão, entendimento, sabedoria.

Uma outra forma de explorar esta questão é observar como as tradições sagradas trabalham com o conhecimento. A Bíblia é um grande exemplo. Um único conjunto de escrituras é lido, relido, reinterpretado, revisitado há dois mil anos. A cada leitura algo é revelado. Dependendo da "linha de pensamento" que está interpretando, um mesmo trecho pode significar muitas coisas distintas. Várias tradições cultivam em suas práticas de consciência e religação a repetição constante da leitura, das músicas, dos ritos, das palavras sagradas. 


Em tradições orientais como o budismo, são frequentes as recitações de mantras (palavras e frases) em grande quatidade. O uso do Japa Mala, espécie de rosário de 108 contas, é um símbolo da importância da repetição de uma mesma informação para o processo de tranformar conhecimento em sabedoria.


Jean-Yves Leloup nos provoca sobre esta questão dizendo que "o verbo pode se fazer carne". Ele apresenta uma "Escada" que é uma forma de pensar o processo de transformar informação em um estado de re-conexão com aquilo que é profundo, sagrado, sábio.
* A Escada deve ser lida de baixo pra cima.

União com o Sagrado
Contemplação
Oração
Meditação
Ruminação
Compreensão
Leitura

Esperimente escolher um texto de que goste e aprofunde-se nele levando em conta os passos desta escada. Começando pela leitura e seguindo adiante.

 A cada leitura algo novo se revela, algo de você se revela, algo da vida se revela.

E assim, a sabedoria se constrói. Ela aparece quando nos deixamos transformar por aquilo que aprendemos.