16
Jul

Notas sobre o meu sabático - A entrada no casulo (2)


Quando a lagarta entende que o tempo de viver por aí pondo pra dentro tudo o que acha pela frente e em grandes quantidades, ela descobre que chegou a hora de escolher entrar no casulo.

E assim como quando a gente entra para um retiro, a lagarta saber que é preciso deixar pra trás toda a tralha que não serve mais para que possa ficar só com aquilo que realmente é necessário para viver o encontro consigo mesma.

Quando cheguei na porta do meu casulo, onde sabia que passaria um longo período, abri a minha sacolona e encontrei muita tralha...muita tralha. Foi preciso passar alguns meses neste lugar...identificando, triando e descartando o que já não prestava mais.

- Descobri que era viciada em receber 100 emails por dia. Passei alguns meses olhando a caixa postal vazia e tentando entender se ficava triste ou feliz.

- Era viciada também em checar os emails. O dedinho ficava apertando "enviar/receber" sem parar! Quando comecei a ficar sem entrar na web por dois, três, cinco dias ainda sentia uma estranha sensação de que algo terrível poderia acontecer se tivesse recebido algum email "urgentíssimo" (que nunca chegou).

- Meu vício em acordar cedo acabou bem rápido e o de fazer "coisas de desocupados" como passear no parque em horário comercial também...hehe

- O de "me atualizar" vendo Globo News, lendo jornais e zapeando na web desapareceu por encanto! Como a vida é boa quando passamos a confiar que as notícias que você realmente precisa saber chegarão até você, de algum jeito chegarão...

- Os sintomas físicos eram vários e todos diagnosticados. Meu corpo estava realmente em colapso, não sabia mais viver as delícias da vida, só conhecia o peso...


- Uma estranha "intoxicação por excesso de informação" me pegou em cheio. Nem olhar para as prateleiras cheias de livros eu conseguia...e não consigo até hoje.

- A "fobia de aeroporto" me assolou...nem uma proposta de 3 dias de férias em Buenos Aires foi capaz de me arrastar para aquele lugar. Minha casa, minha casa, era tudo que minha alma pedia.

- A "rejeição à mochila do notebook". Além de não poder olhar pra ela até hoje, fiquei meses usando bolsinhas bem pequenininhas ou então saindo de casa só com a carteira e a chave de casa.

- Desapareceram , por completo abandono, todos os meus relógios de pulso. Reaprendi a maravilha de poder almoçar na hora que o estômago roncar, sair na hora que o sol me convidar, acordar quando o corpo não quiser mais ficar deitado, ir dormir na hora daquele soninho gostoso (de manhã, de tarde, de noite, de madrugada). Hummm...que delícia!


E aos pouco meu corpo, minha alma e minha mente foram reaprendendo a viver de acordo com seus próprios ritmos, suas próprias necessidades, com o pulsar da vida dentro de mim. Quando finalmente pude sentar dentro do casulo e fechar a porta, já sabia novamente ouvir e atender às fomes do meu ser.