14
Set

Normose? Tô fora!

Há alguns anos estava numa reunião de ex-colegas de trabalho que não se viam há um tempo, quando uma amiga chegou dizendo: - "Nossa"gente, com o passar dos anos vocês têm ficado cada vez mais parecidos com vocês mesmos. Que maravilha!"

Lembro-me, como hoje, do estalo que esta fala provocou dentro de mim... Nunca mais esqueci daquilo. De lá pra cá houve momentos nos quais usei esta passagem como um mantra. Repetia para mim mesma: "Quero ficar cada vez mais parecida comigo mesma! Senhor não deixe que minhas escolhas me afastem de quem eu realmente sou!"



E como é fácil viver de acordo "com o bando". Vestir o que todo mundo veste, trabalhar no que todo mundo trabalho, comprar o que todo mundo compra, numa estranha massificação de individualidades que nossa cultura produz.
Jean-Yves Leloup (PHD em Psicologia Transpessoal) chamou isso nos anos 90 de "NORMOSE", a patologia da normalidade. Um tipo moderno de neurose que leva a pessoa a abrir mão (de forma consciente ou não) de viver seus valores, princípios e gostos para poder ser digno de ser chamado e visto como uma "pessoa normal".

A origem da palavra "normal" vem da estatística e nos conta daquilo que a "maioria é e faz". Se a maioria das pessoas de um grupo gosta de assitir novela, assitir novela é o comportamento dito "normal" e é natural que os que não gostam de novela sejam vistos como "anormais". É a ditatura do comportamento do grupo sobre o direito que cada indivíduo tem de livremente fazer suas escolhas.

Normótico é também uma forma de falar de um ser que perdeu-se do seu centro, de suas referências internas e que vive seus dias como todo mundo vive, mesmo não sendo isso fonte de alegria e realização pessoal. 

Mas é importante advertir: o contrário de normose não é sair pelado na rua e realizar-se no hedonismo dando de ombros para o bem estar e o direito dos outros!
O contrário de normose é CONSCIÊNCIA, é auto-conhecimento, é equilíbrio e sabedoria para viver em sociedade respeitando os direitos do outro, mas sempre zelando para que sua vida reflita aquilo que o seu coração pede.

 
 
C.G Dürkheim, psiquiatra alemão fundador da Terapia Iniciática, nos diz que
"felicidade é quando a essência transparece na existência".

 

Eis o nosso trabalho diário na senda da vida! Empenharmo-nos na trabalhosa e deliciosa tarefa de colocar o mais verdadeiro de nós em cada gesto, cada passo, cada palavra, cada olhar, cada respiração....

Ahhh...que benção poder olhar para trás e constatar que hoje estou muito mais parecida comigo mesma do que em nenhum outro tempo de minha vida....Garanto a você, do fundo do coração, que vale a pena o esforço!

 
“Fiz de mim o que não soube, e o que eu podia fazer de mim e não fiz.  O dominó que eu vesti era errado, conheceram-me logo por que eu não era, e eu não desmenti...e perdi-me.  Quando quis tirar a máscara, estava apegada à cara”.
(Álvaro de Campos, um dos "eus"de Fernando Pessoa).  

 

Para aprofundar este tema recomendo a leitura do livro "Normose: a patologia da normalidade" de Jean-Yves Leloup, Roberto Crema e Pierre Weill (Editora Verus).