10
Out

Não é fácil ser sensível


 Há quem olhe para um ser sensível e pense: "nossa, que lindo, ele é sensível".

E há quem olhe para um ser sensível e pense: "ai credo, que sensível que você é!!".

Sensibilidade está longe de ser uma unanimidade dentre os atributos humanos.
Virtude amada e desejada pelos músicos, curadores e poetas. 
Relegada à categoria de fraqueza pelos práticos e objetivamente realistas, esta qualidade anímica caminha lado a lado com outra que não é simples de viver que é a vulnerabilidade (já abordei este tema aqui, ver Você se sente vulnerável ). Esta última não paradoxal quanto a primeira.

Aqueles cuja sensibilidade é característica mais presente são seres que, as vezes, parecem viver por aí "sem pele". Numa disponibilidade para serem tocados pelo ambiente que beira o insuportável. Tudo o que vem do mundo externo afeta, cutuca, não passa despercebido, estimula, machuca, encanta, arranha, confunde. 

Há um movimento interno permanente nesta pessoa, desencadeado por tudo e todos a sua volta. São sensações, afetos, memórias, pensamentos, intuições que dialogam diuturnamente com cada estímulo que vem do mundo (palavras, olhares, buzinas, toques, imagens, frio, mensagens, notícias de TV).

Pensando assim não é difícil imaginar por que os seres sensíveis apresentam, com frequência, traços de um quê de melancolia. Parecem viver, em alguns momentos de sua trajetória, numa verdadeira montanha russa interior. Essa coisa visceral tão bem entoada em verso e prosa por tantos sensíveis artistas que, ao meu olhar, parecem produzir sua arte essencialmente para poder botar pra fora tudo isso que o mundo lá fora acorda ali dentro. 

É claro que a sensibilidade é produtiva! 
Não há como não produzir algo que surge pelo encontro de "tudo o que há lá fora"  com " tudo que há aqui dentro". Estou certa de que os textos, palestras, aulas mais criativos que já fiz em minha vida brotaram de momentos de profundo questionamento interno, desconforto e confusão. Fui aprendendo que há uma curva de criatividade que se inicia a partir de um ponto já bem avançado de uma curva de angústia frente a um desafio cotidiano. Mas para isso é preciso cuidar de estar integrado em si (corpo, mente, alma, coração) e se permitir entrar no seu fluxo interno mais positivo (apesar de tudo).

Tem horas que viver de forma sensível me permite acolher a vida de forma profundamente incrível, me dá até dó dos insensíveis, porque talvez nunca poderão sentir o mundo com este nível de intensidade e de gosto.

Há momentos nos quais ser um "ser delicado" neste mundo espinhudo e arisco me causa dores lancinantes. Neste exato momento o que me salva é me aconchegar nos que vieram antes de mim...

Bethânia e Fernando Pessoa são os meus preferidos nestas horas. Abaixo um trecho de "Passagem das Horas" seguido do vídeo no qual ela declama, com TODA sua sensibilidade, estas lindas, dolorosas e loucas palavras! 

       
A PASSAGEM DAS HORAS - Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

"Não sei sentir, não sei ser humano,
Não sei conviver de dentro da alma triste, com os homens,
Meus irmãos na terra.
Não sei ser útil, mesmo sentindo ser prático, cotidiano, nítido.
Vi todas as coisas e maravilhei-me de tudo.
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco, não sei qual, e eu sofri.
Eu vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos.
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda gente.
Mas para toda gente isso foi normal e instintivo.
Para mim sempre foi a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.
Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto demais ou de menos.
Seja como for a vida, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cotar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar pulos, de ficar no chão,
De sair para fora de todas as casas, de todas as lógicas, de todas as sacadas
E ir ser selvagem entre árvores e esquecimentos".