03
Ago

Educando a própria Vontade

 
"A little less conversation, a little more action please!"
Este antigo hit Elvis Presley faz uma provocação muito interessante: menos blablablá e mais ação!

 

Eis a tônica do trabalho com a Vontade humana: a AÇÃO.
'Força de vontade' e ' por vontade própria' são duas expressões comuns que seguem confirmando a presença do empenho, do esforço, da externalização da energia, enfim, do movimento ativo como manifestação da vontade.

A Antroposofia de Rudolf Steiner olha para o ser humano numa perspectiva trimembrada em Pensar, Sentir e Querer (esta última é a dimensão da vontade). Gosto muito desta forma de pensar pois enfatiza a importância do querer no processo de auto-conhecimento e de auto-realização do indivíduo.

Aprendi em um curso de " Educação da Vontade" com a antropósofa Evelyn de Almeida que "o querer pode ser educado". Que aquilo que a sociedade cobra do adulto (responsabilidade, atitude, iniciativa) é algo que deve ser desenvolvido e educado desde os primeiros anos de vida. O querer da criança é uma explosão de impulsos um tanto caóticos. E não é suprindo suas demandas o tempo todo e atendendo imediatamente os pedidos da pessoa que educamos seres capazes de ir em busca do que querem...

Quando um bebê de alguns meses está de bruços no chão e se esforça na direção de um brinquedinho que está alguns palmos adiante, ele está experimentando transformar sua curiosidade em ação de ir pegar o objeto. Se você acompanhá-lo com o olhar, sorrir para ele e o incentivar, é bem provável que dali a algum tempo (que pode ser de alguns minutos e/ou dias) ele conseguirá rastejar até lá e pegar o objeto. Sua satisfação ao conseguir será imensa e ele aprenderá que pode sim conseguir o que quer, por seus próprios meios, se persistir e se esforçar para tal.
Permitir este treino da vontade , em algumas circunstâncias, é um verdadeiro patrimônio que a gente deixa para um filho! Confiança em sua própria força.

Mas vocês concordarão comigo que esta cena é menos frequente nos dias de hoje. As gerações nascidas mais recentemente anos foram criadas no colo, sentadas em frente a TV e ao vídeo game horas e horas, fortemente supridas em seus desejos e reivindicações. Poucos tiveram o privilégio de rastejar no chão, de engatinhar, de aprender sozinhos e no seu tempo a ficar em pé, de se esforçar na direção de realizar suas vontades. Nas últimas gerações, aqueles bebês que apontaram na direção de um brinquedo e resmungaram um pouco mais alto, receberam NA HORA o objeto do desejo das mãos de algum adulto prestativo.

Somos e estamos criando uma geração de SUPRIDOS. E como diz a psicanálise de Freud: "A satisfação aniquila o desejo e o desejo é o que nos impulsiona na vida"

Quando afirmo isso tem gente que se benze e diz "graças a Deus hoje temos tudo". Concordo e também agradeço por ter sido suprida. Entretanto, não é possível ingorar o ônus disso. Fico especialmente tocada quando assisto ao vivo e em programas na TV o quanto é difícil para as pessoas fazerem coisas como dizer não para a comer compulsivamente, dizer não para a birra de seus filhos pequenos, dizer não para si mesmas diante da vontade de comprar coisas desnecessárias...nossa vontade deseducada oscila entre um estado de 'preguiça apática' e a compulsão, no melhor estilo 'trem desgovernado'.

Aprendi com a Profa. Evelyn que a educação da vontade passa por duas bases fundamentais:

- Dizer NÃO
- Fazer coisas boas e importantes para mim TODO DIA.

Dizendo NÃO para as coisas que não me realizam, que não são afetas aos meus valores, que me traem em meus propósitos, que me tiram do caminho que escolhi  na vida eu fortaleço minha vontade e a educo para ser o motor que impulsiona minha realização pessoal.

Escolhendo alguns hábitos e rotinas para cultivá-los TODOS DIAS ensino ao meu metabolismo (a dimensão física do querer) a ser regido por meus propósitos mais elevados. Alimentação, atividade física, trabalho, horários, meditação, rituais e sexualidade são campos super propícios para exercitar a educação do querer do adulto.

Para nós, adultos, não há outra saída para trabalhar nossa vontade se não a Auto-Educação. Assumir a responsabilidade individual e solitária de escolher, a cada respiração, qual contorno queremos dar para que o rio do querer possa receber margens e correr caudaloso na direção de nossos objetivos mais desejados.    
 
 
 
Adriana Calcanhoto, outra integrante da minha lista de "divas" traz o toque da arte que nos permite sentir este tema da Vontade com a música "Senhas"...provocativa...