06
Set

E que a arte nos aponte uma resposta

"...e que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba. E que ninguém a tente complicar pois é preciso simplicidade para fazê-la florescer..."

Desde o mais remotos tempos de minha experiência nesta jornada terrestre essas palavras ecoam nos meus ouvidos e nas minhas memórias. A beleza singela de algo que pode me apontar respostas, mesmo que não saiba quais são. A primeira frase é de um entendimento imediato para a alma de um ser "de Peixes" como eu. Um non sense que faz todo o sentido. Mas de dar nó na cabeça de um estudante de exatas mais ou menos desavisado.

A arte tem esta faculdade específica de produzir no Ser uma experiência, um "deixar-se ir", uma reação um tanto al-química que deixa rastro por onde passa nas estradas que seguem direto para dentro. Deixa uma imagem, um jogo de cores, um som que quando em quando pinta no fundo da cabeça, uma memória tátil como a daquelas vezes em que enfiei todos os dedos das mãos numa peça de argila molhada para dar-lhe alguma forma. Meus sentidos são impregnados por estes tantos registros que, por sua vez, não têm pretensão nenhuma a caminhar de mãos dadas com a lógica ou a razão. Eles são...simples assim.

A poesia brinca de esconde-esconde com esta mente louca que se esforça constantemente para entender todas as coisas que lê. Adoro quando Elisa Lucina, Fernando Pessoa ou Ferreira Gullar me "fazem de bobinha". Fico eu ali, com a boca aberta, com um lado do cérebro extasiado diante da beleza da arte e outro envergonhado por ter relido 10 vezes o poema e AINDA não ter podido entender NADA. 
Um EU dividido entre a entrega fluída e a obrigação controladora.

Uma escultura ou um quadro me prova com facilidade a grandeza das mãos humanas, a infinita capacidade que o Ser Humano tem de passar ao ato, de realizar...no melhor sentido do tornar real as imagens que carrega dentro de si. 

A música, ahhh, de longe a minha preferida forma de arte. Toda vez que dela me aproximo ou que ela se introduz sorrateiramente em meus momentos mais cotidianos a realidade parece mudar de vibração. O ar ganha novo peso. Os semblantes das pessoas parecem diferentes. Uma inscrição se faz no fundo de minha alma.

Com frequência retomo antigas músicas/companheiras só pra ter o gostinho de experimentar, de novo, as realidades que um dia elas acompanharam. O túnel do tempo se abre em minha frente e é possível sentir até os cheiros que estavam presentes naqueles momentos que, por um instante, se tornam acessíveis outra vez.

Pessoas, cheiros, sabores, dores, alegrias, euforias e desesperos. Tudo ali, re-acontecendo com melodia, ritmo e harmonia.

E quem disse que a arte não tem respostas a apontar para as perguntas de nossa vil e angustiada existência? Mas que ninguém a tente complicar pois é preciso simplicidade para fazê-la florescer... 

......Para sentir:

Música "Metade" gravada por Oswaldo Montenegro que contem o trecho que abre este post...

Deliciosa entrega de Elisa Lucinda....

Bethânia brilhantemente profunda declamando "Monólogo de Orfeu"...