26
Jul

De onde vem a palavra que você diz?


Por que será que toda vez que entro numa rede social ou faço uma pesquisa na web tenho a forte sensação de as palavras pulam da boca das pessoas quase como se tivessem vida própria?

Falamos tanto, tanto, tanto....sobre tudo e mais um pouco, uma verdadeira miscelânea de pérolas com bobagens, e falsos brilhantes, e coisas magníficas...
Dá um trabalho e tanto separar o que é tesouro do que é lixo na nossa tão querida e companheira de todos os dias, internet.

Curiosamente e felizmente, vivo sendo convidada a pensar, pesar e sentir as palavras que saem da minha boca, da minha caneta, do meu teclado...e as figuras que me fazem este convite são seres muito especiais na minha vida.
Apresento algumas delas:

* Começo por ela, voz que guia minha alma musical há anos, Maria Bethânia.
No ano passado assisti a um documetário no qual ela contava que quando está escolhendo seu repertório para um disco, procura cantar sozinha muitas vezes todas as palavras da canção, estudando, escutando o efeito de cada uma delas provocava em si.

Fazia isso por ter consciência da responsabilidade que tinha em sua voz. As palavras que saíam cantadas de sua voz possante provocariam efeitos nas pessoas. E confessou que quando uma música linda tinha uma palavras que ela "sentia" que não caia bem, ela simplesmente mudava! Isso mesmo, ela reescrevia a canção!

Chico Buarque, Raul Seixas, ninguém passa ileso pelo crivo desta honestidade amorosa para com o ouvinte, misturada com o atrevimento de mudar a obra de outrem....Chico Buarque, neste mesmo filme disse que não se importava, afinal, era Maria Bethânia quem mudava. Não era qualquer pessoa. Fiquei extasiada com esta atitude de minha eterna e antiga diva.

Cuidar do outro a partir dos efeitos produzidos pelas palavras que saem de sua boca....Demais!


* Uma aula sobre a força da palavra falada /cantada tive com Loreena McKennitt, cantora canadense dona de uma voz lindíssima, da qual também sou fã de carteirinha (música celta e world music).

Em seu documentário "No journey's end" ela confessa a consciência que tem da potência de sua voz, principalmente quando consegue chegar num estado de cantar absolutamente conectado com seu ser mais profundo, primal, instintivo.
Ou seja, não é seu timbre, suas lindas letras ou os arranjos incríveis de sua música que fazem a força de seu trabalho, mas o local de onde parte a intensidade que carrega suas palavras. Ela cita ainda um provérbio sufi que diz que "devemos polir o espelho de nossas almas", e Loreena acredita que sua alma e a alma de seus ouvintes acaba sendo polida por esta qualidade de inteireza que sua voz assume.


Cuidar do outro a partir da emoção que carrega suas palavras. De arrepiar!

* Outra mestra que tem me ensinado de perto o valor das palavras é a minha querida amiga Rita Figueiredo. Artista, escritora, tradutora, terapeuta, oraculista, uma mulher incrível! Conheci Rita no intervalo de um seminário da UNIPAZ no qual, entre um chá e outro, ela me advertia que eu não deveria dizer "obrigada" para as pessoas. Estudando origem das palavas ela descobriu que no portugues antigo a expressão usada era "sinto obrigado a te retribuir este favor". Rita então me orientava a dizer "grata, agradecida" diante de um favor ou gentileza, pois assim não ficaria devendo para ninguém retribuição e poderia realmente acolher em mim o que me foi dado. Achei aquilo genial! Mesmo porque este negócio de ficar na culpa e na dívida é um fardo na vida da gente. Exercito até hoje este presente (e tantos outros)  que a Rita me deu. Dizia ela - "cuida com o significado do que sai de tua boca".

Cuidar do outro a partir do real e verdadeiro significado daquilo que dizes. Que coisa mais linda!


* Por fim, o quarto e não menos importante colaborador da minha caminhada na companhia das palavras é uma das pessoas que mais me inspira a viver no sagrado, o psicólogo e teólogo Jean Yves Leloup. Em um seminário seu (em 2005) escutei pela primeira vez algo que me marcaria para sempre como terapeuta que sou.
Dizia ele: - "O terapeuta, diante da pessoa a ser cuidada, é o portador de uma palavra que influenciará muito nas suas possibilidades de saúde e doença. O diagnóstico pode ser tanto uma palavra que aprisione o sujeito à sua doença, ou seja, uma maldição; quanto uma palavra que conecte a pessoa ao seu verdadeiro estado de saúde, à abertura, ao seu potencial curador, isto é, uma benção".
Fiquei chocada. E maravilhada. Compreender a importância de poder acolher e interpretar o sofrimento do outro, reconhecendo sua verdade, mas também reconhecendo a existência de uma força interna que permitirá uma saída mais digna é algo muito especial.

Cuidar do outro a partir da verdadeira intenção e propósito daquilo que fala. O poder que cada um tem de amaldiçoar e de abençoar o outro com suas palavras é libertador! Belíssimo!



Compartilho aqui estes "mestres" para poder dizer, por meio do exemplo deles, o quanto é preciso zelar por aquilo que falamos, principalmente em tempos de redes sociais e mensagens instantâneas, onde os dedos falam muito mais rápido do que a mente é capaz de acompanhar...

Nossas palavras não são cheques em branco. Elas vão carregadas de nossas emoções, dos significados que conferimos a elas, da intenção com a qual dizemos as coisas e com todos os ruídos e mal-entendidos que toda boa comunicação humana tem.

Desta reflexão também faz parte a explicação do por que não escrevo todos os dias no blog ou por que não lanço textos novos com a mesma periodicidade. É por que só escrevo as coisas que calam ao meu coração. Me permito compartilhar inquietações e devaneios quando eles estão povoando, engrandecendo, incomodando o meu ser.

O contrário não vale a pena para mim.

Escrever qualquer coisa só para dizer que falei alguma coisa não é uma opção. Desta forma, escancaro o que move minhas palavras escritas aqui, ditas em minhas palestras e aulas, abertas numa prosa descontraída com amigos num dos cafés da cidade: coração, intenção honesta, escolha por aquilo que pode abençoar e, principalmente, encarnação! Uma vez que me dedico muito a fazer com que tudo o que é dito por minha boca seja, antes, vivido intensamente em algum lugar dentro de mim....




Compartilho abaixo alguns vídeos e informações dos "mestres" descritos aqui:     


Maria Bethânia cantando "Reconvexo" de Caetano...uma interpretação deliciosamente autêntica e forte. Você consegue ficar parado?


Loreena McKennitt cantando em Alhambra, Espanha....divino!



O site do Jean Yves Leloup é http://www.jeanyvesleloup.com/ e seus livros podem ser encontrados nas Editoras Versus e Vozes.

Minha querida amiga Rita Figueiredo não é chegada a grandes exposições na web. Ela escreveu um livro incrível chamado "A Montanha do Grande Segredo".