12
Mai

Comer, Comungar e Despertar




"Vai almoçar? É, sim, vou engolir alguma coisa..."

Há toda uma indústria, um movimento, uma busca por uma alimentação balanceada, comida orgânica, perda de peso, barriga 'chapada'. Todos se preocupam com o QUE comer.
Mas quem se preocupa com o COMO comer?

Restaurantes com uma TV de 40 polegadas/parede, pessoas almoçando falando ao celular ou teclando loucamente em seus tablets, pais que carregam uma mini-TV a tira colo para hipnotizar os pequenos para que fiquem quietos à mesa. Nada disso me passa despercebido.

O ato de alimentar-se tem se tornado um detalhe tão insignificante que ter que sentar e mastigar parece um aperda de tempo incrível para algumas pessoas. Sabia que algumas empresas adotaram a prática do "Work-Lunch"?
 Isso é mais do que um almoço de negócios. É uma reunião de trabalho que é feita para tomar decisões e debater questões que acontece dentro da empresa, na hora do almoço. Para que ninguém precise perder tempo com essa coisa de almoçar são servidos alguns lanchinhos e o pessoal come entre notebooks abertos, planilhas e discussões acirradas.

É neste momento que minha mente resgata algumas verdades antigas sobre saúde e bem-estar:
- "Nos tornamos o que comemos"
- "Vivemos como comemos" (saboreando cada momento ou engolindo tudo inteiro)
- "Engolimos, junto com a comida, o assunto, o ambiente, a companhia" (se você tem uma briga com seu filho durante a refeição você 'come' o conflito junto com a comida)

Este é um tema que mexe muito comigo pois não raro vivi e vivo estes dilemas...comer em frente à TV é uma tentação difícil de resistir, encontrar um restaurante sem elas também, tratar de negócios e de problemas de dinheiro na hora da comida é algo que fazemos sem perceber, checar emails no celular entre uma garfada e outra é lugar comum.

Hoje, sendo também responsável por criar hábitos alimentares saudáveis para meu filho faço esforços diários no sentido de resgatar e manter o ritual da alimentação mais como um ato sagrado do que como um mal necessário. Ele ganha, eu ganho, nossa família ganha.

O monge zen vietnamita Thich Nhat Hanh, em seu livro "Paz a cada Passo", nos questina: "afinal qual a finalidade de comer?" e responde "é comer, simplesmente". É um convite a fazer uma refeição com consciência (que não se refere somente ao QUE comer mas, principalmente, ao COMO comer). Ele sugere que o ato de alimentar-se pode se tornar meditativo, lúcido, saboreados verdadeiramente.

Seus conselhos sobre como fazer uma refeição em plena atenção são:

- Desligamos os aparelhos
- Trabalhamos juntos para por a mesa
- Quando ser sentamos respiramos 3 vezes acalmando a mente e o corpo, chegando no momento presente
- Olhamos para cada um que está à mesa e para nós mesmos
- Olhamos para o alimento lembrando nossa ligação com a Terra e com o Sol
- Mastigamos conscientemente
- Aproveitam o silêncio, mas também a companhia
- Evitamos, à mesa, assuntos que possam deturpar nossa percepção da família ou do alimento
- Escolhemos falar sobre coisas que agucem nossa percepção do alimento e da felicidade do momento

Difícil? Sim. Por que se trata de mudar hábitos e nadar contra a corrente. Mas depois que a gente começa a exercitar isso, o ato alimentar-se deixa de ser um ato de consumo e volta a ser um ato de comunhão.   


 

O Livro "Paz a cada Passo"  e os ensinamentos de Thich Nhat Hanh são uma excelente fonte de inspiração e de técnicas simples para trazer mais paz e serenidade para nosso dia a dia. Conheça os textos dele em português no http://sangavirtual.blogspot.com.br/

Há também um movimento mundial criado há alguns anos que propõe o resgate do comer consciente. Chama-se "Slow Food" (comer lentamente)  em contraponto a expressão "Fast Food", tão típica de nossos tempos modernos...
Conheça em http://www.slowfoodbrasil.com/