11
Abr

A Dança da Raiva


Sobe um calor que toma a face, o coração se acelera a mil, a respiração fica ofegante e o corpo entra numa agitação impossível de conter. O estômago aperta e a única vontade genuína que se apresenta é a de gritar! ARGHHHH!

Não, não estamos falando de um momento de paixão à primeira vista. Tampouco relatando o momento exato no qual uma pessoa acaba de descobrir que ganhou na loteria. Trata-se de uma explosão de raiva!

E o mundão lá fora também não tem ajudado muito...
Insatisfeitos e indignados seguimos avante na "correria nossa de cada dia". O trânsito nos revolta, os políticos nos enfurecem, a fila do banco nos deixa impacientes e os bandidos nos fazem irados. Nossos chefes nos enlouquecem, nossos pais nos contrariam e nossos vizinhos parecem estar no mundo para nos irritar.


Conversando com as pessoas a respeito de suas vidas emocionais, entre um sonho aqui e uma conquista ali, parece ter um lugar de especial destaque na vida cotidiana a tal da "Alma Inflamada". À parte o fato de eu também ser da tchhhurma da inflamação interior, tenho estado sempre interessada neste nossa extrema (e velada) dificuldade de lidar com nossa Raiva.

Há basicamente dois tipos de Raiva:

(1) a Raiva vivida de forma eventual, diante de algo que você considere injusto ou de uma grande frustração que é considerada NATURAL. Ela é uma das emoções básicas do ser humano, vital a nossa sobrevivência e extremamente útil para regular e equilibrar o convívio social. Afinal, se você não ficasse com raiva quando uma loja te vende um produto estragado, como poderia encontrar meios e força para se defender da injustiça e se fazer respeitar?

(2) a Raiva crônica (EXCESSIVA) que passa acontecer quando a nossa reação diante das mais variadas situações cotidianas acaba sendo sempre a irritação, a impaciência, a intolerância e os pensamentos enfurecidos constantemente. Do ponto de vista neuropsicológico, o mecanismo da raiva é praticamente o mesmo do Estresse. Com alguns agravantes a mais, é claro. Por isso é comum nos referirmos a uma pessoa "Cronicamente Raivosa" como sendo ela uma pessoa tipicamente "Estressada".



"A Raiva Crônica contribui para o desenvolvimento de uma variedade de doenças que vão de distúrbios digestivos, hipertensão, doença cardíaca à suscetibilidade a infecções, eczemas, cefaléias e muitas outras". 
(extraído do livro "Quando a Raiva Dói" de McKay e Rogers - Ed. Summus - foto ao lado)





Nosso desafio, portanto, não é desligar o botão da raiva, mas sim gerenciá-la de forma a mantê-la em níveis equilibrados. Sim, mas como??

Minha sugestão é: CONHEÇA profundamente a forma que ela opera EM VOCÊ. Estude-se no seu mecanismo de enfurecer-se, explore seus pensamentos e reações nestas situações. Garanto que vai descobrir coisas muito importantes sobre seu próprio funcionamento e sobre saídas para se auto-regular.

Alain de Botton - School of Life
Um dos ensinamentos mais profundos que já recebi a respeito da Raiva veio da Filosofia. O trabalho do suíço Alain de Botton em Consolações da Filosofia (também disponível no Brasil como os DVDs "Filosofia para o Dia a Dia") me apresentou a forma como o filósofo espanhol Sêneca, que viveu na época de Nero, compreendia a raiva em "Sêneca e a Ira". Ja falei dele aqui em http://julianabley.blogspot.com.br/2013/04/o-veneno-das-expectativas.html

Vou explicar (do meu jeito)  a sacada do Sêneca. Ele percebeu que as manifestações de ira, raiva, fúria, explosão se manifestavam nas pessoas e nos momentos nos quais se cultivavam as maiores expectativas. A pessoa que tinha altas expectativas a respeito de ser tratada numa festa como sendo uma pessoa muito especial, ao chegar na festa não receber tal tratamento, ficava fortemente frustrada e da sua frustração brotava, quase que imediatamente, uma manifestação de raiva. Discreta ou Explícita.

Ou seja, podemos dizer que a Raiva é filha da Frustração e neta da Expectativa sobre determinado fato ou pessoa. Quando a vida não acontece da forma como eu gostaria que ela acontecesse eu me enfureço e EXPLODO: Para fora (grito, xingo, faço desfeita, agrido) ou Para dentro (engulo, choro, me agrido, fico com dor de estomago).

Se botar pra fora significa agredir e incomodar os outros, e botar pra dentro significa agredir a si mesmo com amargura e estresse, o que podemos fazer com isso?

Do meu lugar de "raivosa terapeutizada" (risos) posso confessar que Aprendi a Dançar com Ela!

Explico o "Dançar com a raiva":

- Aceitar o fato de que esta emoção vai me acompanhar por toda a vida pois ela pertence à vida
- Perceber minhas expectativas e, consequentemente, as frustrações decorrentes delas
- Trabalhar internamente para aceitar a vida, as coisas e as pessoas como elas são e se comportam (meu umbigo não é o centro do universo!)
- Praticar técnicas de auto-regulação emocional como respiração, relaxamento, mindfulness, meditação.
- Aprender métodos e práticas de Comunicação e expressão (como a CNV ou o Treino de assertividade, por exemplo) para poder falar com o outro sobre minhas expectativas, minhas decepções, esclarecer o que e como gostaria de ser tratada, revelar-me ao outro para que ele me conheça melhor  

A Raiva é uma energia poderosa que precisa ser conhecida e respeitada. Numa medida equilibrada ela nos permite auto-proteção e percepção daquilo que não nos faz bem. Em desequilíbrio e excesso ela pode nos tornar pessoas constantemente insatisfeitas, facilmente irritáveis e até mesmo violentas.

A "A Dança da Raiva" é uma metáfora para a necessidade de dar um canal de expressão e fluidez para esta emoção. 
A cada passo desta 'dança' exercitamos mais e mais o auto-conhecimento, nos tornamos mais centrados e sábios, criamos um espaço entre a emoção e a sua  expressão, nos tornando assim capazes de enfrentar qualquer tipo de situação com Gentileza e Consciência Plena de Si. 
J.B.



Para trazer um pouco de descontração, sem perder a intensidade tão própria da "Montanha Russa Emocional", compartilho com vocês uma das minhas bailarinas prediletas, a professora de Tribal Fusion Belly Dance, Rachel Brice.